• O que me resta das Honduras

    É-me difícil começar a escrever tudo o que passa pela minha cabeça, com tantos sentimentos encontrados que sinto e tenho. Quando me levanto, ainda me custa saber onde estou; se são a Pilar e a Eva – as minhas companheiras inseparáveis de voluntariado – as que dormem ali ou se são os meus filhos, no quarto ao lado. É que a experiência vivida marca, porque quando convives com duas pessoas tantos dias e te envolves no dia-a-dia das suas vidas, é como se uma parte dessa vida fosse já a tua.

    É mesmo assim. Cada criança e cada jovem de Horizontes já tem um lugarzinho no meu coração e na minha cabeça; e não são só eles mas todas as pessoas com quem convivi, tanto de Horizontes al Futuro, como de Lazos de Amistad, e também os alunos e os professores da Inmaculada, a Comunidade dos Irmãos e tantas pessoas com quem partilhei este tempo.

    Quando me fazem perguntam sobre o que vivi, custa-me imenso resumir: são tantas as vivências que tive, tão distintas ou às vezes tão parecidas!
    Por muito que me tenham contado sobre a situação das Honduras, até chegares e veres com os teus próprios olhos não tens consciência das diferenças económicas, sociais e políticas, educativas e sanitárias que existem e da sorte que alguns de nós tiveram ao nascer num lugar e não noutro – e não porque esse lugar seja pior, dado que as Honduras têm muita beleza e muito potencial mas sim porque os interesses económicos e políticos pesam mais do que as pessoas.
    Olho para os meus filhos e vejo refletidas neles outras caras de crianças e jovens; vejo pessoas com nomes e com uma história pessoal complicada, histórias que me davam arrepios e me estremeciam e ainda me estremecem, mas também sinto os seus sorrisos e as suas vidas tão normais. Olha e vejo também o que vivemos e partilhamos, porque no fundo todos tentamos sobreviver como podemos ou como nos é permitido. Ali apercebi-me dessa gratuidade da vida e da alegria de viver das pessoas que se agarram com força à vida e à fé.

    E apesar de toda a miséria que às vezes permeia essa sociedade, a vida renasce sempre.
    A vida renasce em Horizontes al Futuro cada dia às 5:45 quando se começam a ouvir as vozes das crianças que se levantam e saem a correr para tomar o pequeno almoço pondo-se em fila ordenados, de pequenos a médios e grandes, com os seus educadores à frente.

    Renasce a vida quando o Ir. Goyo cada manhã aparece às 6:15 para levar os meninos à escola da Inmaculada, naquela sua carrinha que com tantos anos ainda presta tanto serviço todos os dias. Renasce a vida quando eles vão à escola ou vão trabalhar como aprendizes, tal como quando crescerem los palos (as árvores) que eles estão a plantar ou todas as vezes que limpam os seus lares e os arredores. Renasce a vida com as famílias dos jovens, que também fazem parte do projeto de Horizontes, com cada casa que é construída e melhora um pouco as suas vidas. Renasce a vida com tantas pessoas que voluntariamente passam e enriquecem a vida dos miúdos.

    Mas também renasce a vida em outros lugares de Comayagua: no lar dos idosos, em Lazos de Amistad, na Inmaculada, nas paróquias onde muitas pessoas, neste caso relacionadas com o mundo marista, poem o seu grão de areia para fazer com que a sociedade continue a avançar.

    E renasce a vida com a ONGD SED e as pessoas que a apoiam, com cada projeto realizado, com cada bolsa de estudo e com todas as pessoas envolvidas, com esse espírito de solidariedade, educação e desenvolvimento.
    Muitas ideias, histórias, momentos e mais pessoas ficam por mencionar.

    Sinto que tive muita sorte pelo facto de conhecer outro lugar, diferente do meu meio habitual, um lugar onde interagi com tantas pessoas, com as suas vidas, as suas realidades, as suas alegrias e com as suas penas, com os seus avanços e os seus retrocessos. Só posso agradecer por ter partilhado esses momentos de vida, da vossa vida, de CADA UM DE VOCÊS, que já fazem parte da minha história pessoal e do meu coração.
    Obrigado e até breve, Honduras!

    Carolina González Ramos – voluntária nas Honduras, 2016
     

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